sexta-feira, 27 de março de 2009

VEM, VAMOS ALÉM QUE A VIDA É PASSAGEIRA

Quase não penso mais em você.

O ruim é que, quando penso, o vazio que lateja no meu peito, no meu corpo, na minha alma inteira, é tamanho, que nada nunca o preenche. Minha garganta dói a sua ausência, meu corpo inteiro te reclama, te exige, te demanda, te grita, e minha garganta dói.

Não penso em você de propósito.

Mas a vida parece querer empurrar meu olhar pra você, sempre, sempre, de uma forma ou de outra. No show que passa na tevê. Na música que alguém toca numa balada qualquer. Na bebida que me oferecem, na cantada que me passam, no cabelo que elogiam...

Meu Deus, meu Deus, que buraco é esse? Que cicatriz é essa que nada nunca tampa, nada nunca cura, nada nunca, nada, nunca nada... Cadê você, quando é que você vem, quando é que você vem de vez pra mim, pra devolver tudo o que você me roubou, minha paz, meus dias iguais, o rosto seco, o desconhecimento de tantas infinitas coisas... Quando penso que te esqueci, me vem a vida ou sei lá que diabos, me empurrando qualquer coisa que cheira a você, rescende a você, e tudo isso me dói, me dói, me dói...

São flashes do seu sorriso, são pequenos trejeitos, são gírias que me pego falando. Matam mais que uma punhalada nas costas.

Sua falta de palavras me rasga, não simplesmente quando elas me faltam, mas quando elas vêm, poucas, escassas, frias, distantes como você agora. Tão diferentes das palavras-ondas-sonoras que você me dirige quando está aqui, ao meu alcance, ao alcance dos meus beijos, dos meus braços, dos meus lençóis...

Que merda, que merda, que merda. Isso é tudo. Que merda. Queria não te querer assim, mas quando sua falta bate, não bate: me espanca. Me chicoteia. Me tortura. Sua falta me agride. Sua falta me fere, gera lesões corporais, e nem posso te processar por perdas e danos, porque não há mão aqui, nem a me bater, nem a me acalentar.

Ainda estou nas suas mãos. Será que você sabe?

E que sentido tem isto tudo? Meu Deus, meu Deus, meu Deus, por que é que tudo isso não acaba logo? Que mal fiz eu aos deuses todos? Quando é que eu vou voltar pra casa?

Sua falta se deita comigo todas as noites. Sua falta me sufoca, me tira o ar, me dá asma. Sua falta é a sensação de que eu, permanentemente, estou esquecendo alguma coisa. Sua falta me esgana, me enforca, me estremece dum jeito que eu me olho e penso não sou eu, essa não sou eu. Essa que eu sou não é quem eu era, eu me quero de volta, eu preciso que você volte.

Queria que não fosse eu, mas sou o que fizemos de mim, o que pude fazer agora que você se foi; o que a vida fez de mim, o que pude fazer com o que sobrou. Quero te ter a metro, não a retalho, Deus, olha pra isso, olha pra mim e tem dó, tem dó, mais que justiça, força ou coisa que o valha, agora preciso da sua piedade, senhor, antes que eu me afogue, me afogueie, me atole, me alheie de todo o resto, meu Deus, meu Deus, meu Deus.

quarta-feira, 11 de março de 2009

IMAGEM A RETALHO

O espelho se fragmenta ante a ação bruta e repetida da escova de cabelos.

Milhões de faces do inimigo me olham agora, iradas, cintilantes, cruéis e implacáveis.

Nosso vermelho se espalha pelo chão.

Dou-lhes as costas e delas renasço, ascendente, esvoaçante e rica.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Ela era uma figura.

Uma figura difícil, sem dúvida.

A figurinha mais difícil de qualquer coleção.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

PARA QUANDO O TEMPO SUPRIMIR MINHA PRESENÇA NESTA TERRA

Quando eu me for, considerem este rabisco o meu testamento.

Acalmem-se, acalmem-se todos!

(Digo isto mais por efeito retórico que por sentir protestos efusivos quanto à minha partida.)

(Não que não aconteçam; tudo é possível neste mundo de meu Deus; mas se tem uma coisa que esses vinte e oito anos conseguiram me ensinar, foi: manter os dois pés no chão.)

Não é que eu pretenda voltar pra casa por agora, mas deixo registradas estas palavras, não necessariamente minhas últimas, não necessariamente meu último desejo. Apenas mais algumas palavras.



Minhas fotos, deixem com meus pais, para que cada imagem possa me trazer à lembrança quando meus contornos começarem a sumir de suas mentes – porque, não se iludam, mesmo da mente dos pais, um dia nossos rostos desbotam, e é bom que desbotem... Deixem com eles as fotos que bati e aquelas em que apareço - ainda não sei qual das duas capturou melhor minha alma.

Minhas roupas, doem. Doem tudo: sapatos, saias, bijuterias, agasalhos, tênis, roupas de ensaio (toda a infinidade delas), tudo o mais que puder ser doado. Doem para quem precisa mais que vocês, a quem tentei chegar perto na vida e por covardia, por omissão, por egoísmo, por falta de tempo, nunca cheguei o quanto deveria. Mesmo quando o mundo doía em mim, e o remédio é buscar aqueles que sofrem mais que nós, nunca os alcancei, nunca os busquei de fato - que minhas roupas os alcancem e aqueçam.

Meus escritos, publiquem. Ficarei feliz, onde estiver; pensem assim se os consola. Assim se lembrarão de mim por minha obra, não por esse ser eternamente errante, constantemente incompleto, persistentemente imperfeito. Publiquem meus escritos, uma vez que meu teatro morre a cada vez que fecha o pano, obra fugaz, criação evanescente. Publiquem-me, para que o verbo se faça carne, e eu alcance o infinito.

Minha gata, cuidem. Acendam a luz do banheiro para que ela coma a ração. Nunca ponham demais, porque ela não come ração velha. Troquem a água todos os dias, sempre na vasilha vermelha (ela só bebe nela). Abram a janela às quatro da manhã: ela sempre dá uma voltinha por esse horário. Fiquem tranquilos; ela os lembrará de tudo isso. Gatos são leais. Quando ela deitar na ponta da cama, ou sobre seus pés, agradeçam. Vocês podem nunca saber o valor disso, mas tenham certeza: houve dias em que isso fez toda a diferença entre achar que estou sozinha neste planeta, e ter certeza.

Meu quarto, meus pequenos bens: dispersem. Dêem de presente. Rifem. Façam um bazar. Embrulhem e dêem. Doem-me. Façam minha energia circular; eis a única maneira de me reter. Por mais tempo que eu tenha dedicado a me registrar no meu quarto nesta terra, na cor de suas paredes, nas lantejoulas das almofadas, no brilho das contas em cada canto do quarto, em cada detalhe que me imprime naquele lugar, estejam certos: depois que eu me for, nada disso me terá importância.

E, finalmente, meus textos de teatro: queimem. Queimem tudo, apesar de ecologicamente incorreto. Pois só pelo fogo, cremação, combustão completa (pena que não expontânea, caso em que eu seria mais feliz), os fragmentos da minha alma poderão se reunir a mim no ar, no éter, redenção plena e derradeira, e me completar. Cada personagem que passou por mim levou parte do que fui de nascença, e eis a única maneira de me restituir minha completude, ainda que em morte.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

"Je me coryais riche d'une fleur unique, e je ne possède qu'une rose ordinaire"

A que são todos capazes... Todos, meu Deus, todos! Mentiras, omissões, desconsideração... Deslealdade. E não dói menos em mim pela deslealdade não ser comigo. Me dói olhar a deslealdade com qualquer criatura. Eis a única coisa que não tolero, e não sei se isso é bom ou ruim. O fato é que não desejo ser de outra forma. Se me flexibilizar neste sentido significa ser como eles, ser um deles... Prefiro ser inflexível como um paredão de rocha. Machadinhas e balança, justiça e lealdade, pai Xangô a me guiar.

Meu senso de lealdade só é comparável ao de um mafioso siciliano: se você mantiver a sua palavra, eu manterei a minha. Até debaixo de uma saraivada de balas.

Inacreditável o quanto nos enganamos com aqueles a quem amamos - e que achamos que nos amam. Impossível amar e ser desleal ao mesmo tempo...

E eis que descubro aquilo que pode fazer de mim, criatura apaixonada, entusiasta e desmedida por excelência, a mais fria das criaturas, coração de gelo, indiferente a qualquer apelo ou argumento.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

AGORA É QUE SÃO ELAS

Começo a entender porque me dedico tanto a Ela, a todas Elas, cuja gestação é longa, às vezes mais de ano, e a existência, breve. Aquelas que vivem em mim por poucas horas por semana, durante uma curta temporada num teatro qualquer. Dedico a Elas, todas, um amor sem medidas ou cobranças, uma devoção absoluta e neurótica, uma doação irrestrita e ofegante. Avassaladoras, todas elas, me tomam de um só golpe, sempre, e depois passam meses me provocando, flertando comigo, até que se decidam a descer por completo e usar meu corpo, minhas mãos, meus olhares, minha voz para que seu verbo se faça carne em mim...

Dedico-me a elas porque tenho fome.

Dedico-me, e me debruço, e me consumo, frente à irresistível tentação de esquecer-me de quem sou, e sê-las. Porque preciso criar. Porque, se não criar, eu me destruo. Porque, se eu não for todas elas, eu deixarei, fatalmente, de ser – não só eu, mas qualquer outra. Porque uma vida me é pouca para ser tudo o que há dentro em mim, e a ideia não ser me dói às raias do insuportável.

Dedico-me a elas, todas, à Joana, à Charlotte, à Elisa, porque tenho sede.

Ser quem sou nunca me basta. Porque sou qualquer coisa entre o que sonhei ser e o que fiz de mim. Nesse meio de caminho, estão Elas, todas elas, que são e serão sempre aquelas que eu poderia ser, caso... Se... Não fosse...

E, afinal, elas não são feitas do ar à minha volta: são feitas da minha carne, da massa das minhas ideias e do fermento da minha emoção. São feitas da minha poesia, das imagens que trago em mim, dos desejos que eu nem sabia que tinha, dos nós das minhas entranhas, da beleza adormecida, da angústia insone, da razão que às vezes cochila.

Acho que, quando sou delas, sou mais minha. Quando me regozijo com seus prazeres e glórias, preencho as lacunas que me dei. Quando vivo a dor de cada uma, banhada em luz, limpo-me da minha própria angústia. São dores boas de se viver: acabam-se quando apaga a luz e cai o pano. Descubro o Brasil a cada vez que a cortina se abre. Um novo continente por temporada.

Elas estão contidas em mim, presas, sufocadas. Quando sou delas, sou de alguém: sou de quem me possui, cativa; o que me tapa os buracos que me deixo. Elas só existem porque eu existo. Porque, não fosse eu, elas não seriam exatamente quem são: teriam o mesmo pai, é fato: o dramaturgo, mas não a mesma mãe, não o mesmo ventre. Elas são a criação; eu, a criadora. Embora elas me arrebatem, e me dominem, e me exijam. E é bom que o façam: sinto que sou importante na "vida" de alguém. Acho que só assim.

Dedico-me a elas porque não tenho ninguém por mim.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

ELA-ELISA ou CLAVE DE LUA

(Para aquela que não sou e preciso ser, Elisa, ser de vento e música, alma sem corpo que perambula por sobre os textos, por sobre os palcos, e tenta baixar em meu corpo ainda recheado de mim, incorporar, e sempre evapora antes que eu a apanhe no ar. Pour Elise, minha personagem em "As Bruxas de Salém").


Elisa,

eu, do lado de cá da máscara, me observo em ti. Continuamente me observo em ti, e te pergunto:

Que parte de mim tu és?
Que parte de mim é esse eclipse, névoas, crepúsculos?
Que parte de mim alimentará teus olhos grandes e sonoros, tuas mãos pequenas e nervosas, tua garganta seca, boca amarga, coração duro? Tua frieza de mármore? Tua falta de lágrimas?

E tu, insensível, com o que me respondes?

Um sutilíssimo sorriso. Delicadeza. Silêncio.

Em que semínimas e colcheias tu te escondes?
Em que pausas?
Em que pautas?
Em que pautas tua dignidade de prata quando a clava da justiça esmorece sob o sol?

Pontua. Pontua. Pontua. Colcheias... Elisa-colcheia, meio tempo, meia lua. Contida por excelência, calada pela metade, amarga por inteiro.

Flutua, flutuuuuuuuuua entre legattos e stacattos, música ligadura de união, silêncio ligadura de expressão...

Tu não me respondes, e nessa tua resposta feita de mudez, melodia e olhos sem sal, mostras que a resposta está dentro em mim.

Mais que as notas, tu és as pausas, figuras negativas. Silêncios.

Elisa, minha querida, minha cara indecisa...

Eu, que sou um ser de palavras, emudeço diante de teu silêncio... Para falar a ti pego emprestadas as palavras do Baleiro:

Vem comigo, vem
Já tenho quase tudo que me basta
A flor no pasto
A mesa posta
Minha música e teu (?) calor
Agora só me falta aprender o silêncio.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

SENSAÇÕES

Trinta e seis graus. À sombra.

O suor, lenta mas continuamente, poreja; primeiro imperceptível; depois formando gotículas, gotas, até que escorrem. O sangue lateja nas têmporas. O rosto afogueado queima, arde em brasa. O cabelo, longo, lhe abafa as costas. Toda ela está quente, como um ferro de passar roupa que esqueceram ligado tempo demais.

Ela gira a torneira e põe os dedos curtos debaixo d'água gelada. Depois a mão. Depois o braço. O ombro. As pernas, o tronco, o rosto, a nuca. A água escorre feito metal pescoço abaixo, cabelo abaixo, corpo abaixo. A respiração presa pelo frio cortante do desligado do chuveiro, o rosto perdendo a cor de fogo, o sangue serenando nas veias, o peito refrescado pela vida líquida e gelada, que desce pelo ventre, pelo sexo, pelas pernas, pelos pés – isso é tudo o que preenche seu cérebro, e ela é só pele. Hortelã. Eternidade.

MEMÓRIA ALTERADA

Uma da manhã. Não há mais o que procurar nos links e sites. Ninguém pra teclar. Os olhos quase se fecham, a garganta dói, mas ela persevera. Espera pelo quê? Esperar, esperar... O contínuo esperar.

Sua cama a espera.

Ela espera que a felicidade a encontre amanhã. Já ao acordar. Hoje, seus dedos ainda procuram. E ela continua a esperar.

Será que ela sabe que a felicidade não existe? Que é só uma ilusão? Que a felicidade é algo inventado pelos seres humanos pra tornar a vida possível?

A felicidade só é possível no passado. É uma memória alterada. Fomos felizes porque ensinamos nossa memória que fomos felizes.

Mas ela ignora tal fato, e é feliz por isso.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Ela folheou bastante o caderno novo, escolhendo entre suas páginas iguais e igualmente vazias; se decidiu pela que lhe pareceu mais convidativa, e se pôs a derramar suas palavras no papel – iniciou seus relatos.
O que ela é?

Qualquer coisa entre o que sonhou ser e o que fez de si.

YIN E YANG

Há dias em que ela é o demais. O poluído. O over. O barroco. O exagerado. A personificação do kitsch. Tudo o que houver de carregado, de muito, de tudo.

Mas há dias em que ela é o silêncio molhado que sucede o céu desabado. Arcoíris e terra molhada. Alma lavada e verde sobre a grama.
E, afinal, chegando ao fim de seus esforços, ao fim de seus trabalhos, ao fim de suas metas, ela descobre que o fim é uma ilusão.

O fim, como o passado, é uma ilusão. Não existe senão o presente.

Tudo é espiral, tudo é recomeço, o tempo dobrado sobre si mesmo e sobreposto, como um lençol de casal que sai do varal ancho pra gaveta apertada.
Ela, em pleno meio do caminho, ainda não sabe se é feita do pó da estrada ou do brinde da chegada.

E não sabe se um dia vai descobrir.

SINERGIA

Ela é um somatório ilógico do que a vida fez dela, do que seus erros fizeram dela, do que os erros dos outros fizeram dela, do que ela deixou que os outros fizessem dela, do que ela não pôde evitar que fizessem dela; mais a genética, a herança ancestral do fado português que lhe corre no sangue, tudo o que comeu até hoje, os exercícios que não praticou na infância e adolescência, e mais o que trouxe consigo dalguma vida passada; tudo isso aliado à tristeza pelo que não conseguiu fazer, ao prazer de haver sido e à frustração do não poder...

E ela ainda não sabe se esse todo é maior ou menor do que a soma das partes.

ACIDEZ

Foi sempre uma depressiva. Foi sempre noturna. Foi sempre esse pessimismo rasgado, entornado no papel; esse tom amargo que aparece estampado em marca d'água até nas palavras mais amenas. Foi sempre melancólica, entediada, sufocada pelo seu eu que só se revela pleno no papel. Foi sempre esse mal-humor pela manhã, como se o sol azedasse o gosto da vida. De manhã sempre teve essa vontade de não falar e essa incapacidade de sorrir. E foi sempre essa vontade de chorar quando colocada em companhia de si mesma. Se forçada a olhar para fora quando seus olhos se voltam pra dentro, perdida que está em suas imagens interiores, ela não responde, apenas rosna.

Foi sempre um manancial de potenciais. Sua alma tem um desejo de tudo o que lhe paralisa a ação, que a estarrece ao ver o quanto há pra se fazer nesse mundo, e o quanto uma vida é pouca.

E há o medo. Um medo enorme de, ao desembarcar desse personagem que ela se deu, descobrir que foi só potenciais.

E o que são potenciais? Se não explorados, não são nada. Jornal impresso e não lido a tempo vira banheiro de cachorro.

O tempo vai passando, cada vez mais rápido à medida em que ela fica mais lenta para acompanhá-la. Sente o peso de cada ano elevado à quinta potência agora que se afasta irremediavelmente dos vinte e poucos anos. E, espalhados seus potenciais, suas ânsias e seus desejos pelo chão, ela se senta no meio de tudo e começa a triagem: pruma caixa as coisas que quer fazer primeiro, proutra aquelas que fará um dia caso sobre tempo (ilusão, ilusão!), e prum baú grande e antigo os feitos que ficarão pruma próxima vida. Sua caixa de Pandora. Ela o lacra bem e joga-o no mar de seus desapegos, com o receio de que seus projetos preteridos escapem do baú e, sobrevoando ferozmente sua cabeça, ataquem-na como as pragas do Egito e aferroem seu peito.

Difícil é escolher o que vai para qual caixa. O que ficará pelo caminho. Difícil porque sempre há o medo de chegar ao último porto e descobrir que se trouxe a bagagem errada, casacos de frio para o Caribe. E não dá nunca para voltar rio acima.

BONECA RUSSA

Feliz a cebola, que é só cabeça. Você a desembrulha, desembrulha, desembrulha, e eis que não há nada embrulhado no miolo.

Então, era isso o que ela era? Papel-cetim sobre papel-cetim sobre papel-cetim sobre papel-cetim assim por diante, até a loucura?

E lá, no fim de tudo, o silêncio.
A tempestade que se despeja de seu cérebro imobiliza seu corpo, e as palavras evaporam de suas mãos antes mesmo de pressentidas. Ela escreve porque a vida lhe dói. A vida lhe coça. A vida lhe dá cócegas.

Ela escreve porque não sabe dançar.

DESAGUAR

Ela se perde sempre a se perguntar:

– O fim de seu barco, qual será: será o porto, ou bem o mar?

REFAZENDO PASSOS

Para além de todas as terras há sempre o mar a nos esperar. O mar que é nosso de nascença e herança, mas a quem só retornamos após nos embrenhar e nos perder por sertões e desertos e matas, por dezenas de planaltos e planícies, mas carregando sempre o marulho das marés no peito e o sal das ondas nos olhos.

A ele retornamos como se nunca dele tivéssemos saído – sempre há um kansas para retornar.

Ela o sabia. Ela bem o sabia. Ao fim de todas as esperas nos espera o encontro. Ao fim de todas as andanças nos aguarda a chegada. Ao fim de todos os passos nos acolhe o abraço. Se assim não o fosse, não valeria vagar, viajar, vaguear, voltear: só valem pelo voltar.

Sim, ela o sabia: o ir só vale pelo voltar.

AGRADECIMENTO

E, mais uma vez, aqui está ela, sozinha no fim de todas as coisas. Ela e sua gata, sua companheira certa e cínica dos momentos em que tudo o mais falha. Pede a Deus força para levar essa lição (longa lição) até o fim, por mais que o aprendizado doa. Pede força e fé no fim breve.

E agradece por ter uma gata.

Gatos são aqueles que não te abandonam, até o fim – bom, também tem os labradores, mas os gatos têm diversas vantagens: cabem num transporte de 40 centímetros, tomam banho sozinhos, se desfazem de seus excrementos sem que você nem tome conhecimento e esquentam seus pés, dormindo enrodilhados sobre eles, enquanto você seca o rosto no travesseiro.

sábado, 10 de janeiro de 2009

PONTOS NO INFINITO

Somos todos sozinhos – isso ela aprendeu a duras penas, e só depois de enternder que aquela era a lição que a vida queria lhe ensinar. Pais, amigos, filhos, namorados – tudo ilusões. Encontros são pontos no infinito. Nós somos tudo o que permanece conosco. Já disse o mestre que só nós somos sempre iguais a nós próprios. Ela agora compreendia. E a madrugada da vida se abre em manhã pálida, mas com a promessa do sol radiante por trás das nuvens.

Só não se decepciona aquele que não espera. Só vê com lucidez aquele que não deixa o coração enxergar, aquele que não deixa seu eu se embolar com os eus alheios. Aí, sim, se pode ver o todo, se pode ver tudo de todos os lados, num relance. Só esse é livre. Só é livre quem é sozinho, sem ânxias, agonias e solidões. Só é feliz quem não precisa dos outros.

Só quem não precisa do outro consegue mergulhar plenamente na alegria de estar com o outro.

VÍTREA

– O que você fez da minha vida?

Pergunta ela sem palavras à figura de olhos vítreos que a encara enclausurada na moldura do espelho.

Duas lágrimas rolam, uma quente sobre a pele, outra fria sobre a alma.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

LÁGRIMAS PASTÉIS

Ela chora. Mas dessa vez ela chora em silêncio lágrimas conscientes de que são finitas, de que há um estoque limitado de água e sal para cair. O que já é um grande passo. Chora de manso, quieta, sem barulho ou escarcéu, sem soluços ou arroubos. Chora em tons pastéis, o que indubitavelmente é um enorme passo.

Ela sabe que só chora porque a insônia, a fome e o cansaço são sempre negritos pra solidão.

NADA SOBRA, EIS TUDO

Há que se confiar no destino. Confiar que o que se pôde fazer foi o melhor pra ela, não importa o resultado. Pensar assim lhe traz alívio, lhe traz alento, lhe renova a confiança na vida - ela precisa ter confiança em alguma coisa. Quisera ela cair no alheamento do que lhe exige o coração... Queria ela ser feita de carne e osso, como os outros seres humanos. Mas ela é feita de carne e coração. Carne sangra, coração se parte, nada sobra, eis tudo.

Mas o pior, o pior de se ver de novo fechando portas atrás de si, é olhar pra frente e não conseguir ver a estrada que vai além da curva. Ela não consegue ver, embora saiba que a estrada continua sempre em frente, embaixo de seus pés. Mas a curva não deixa ver se o que vem é o abismo, o nevoeiro ou o mar infinito. Ela olha ao redor e não vê possibilidades. E ainda assim tem que confiar que tudo está certo e ela, mais uma vez, fez o que deveria fazer.

Não que estivesse apaixonada.

Mas recomeçar tudo dá um trabalho...

E, além de tudo, sempre há um amor que se perde: aquele que se desperdiça guardado, procurando alguém pra se dar, é menos grave do que o amor-próprio que se esfola. Dói, tudo isso lhe dói por dentro, e por fora; e ela chora. Ela agora se permite chorar. Dói não porque ela gostasse demais dele, mas porque ela simplesmente precisa de alguém.

Ainda que não ele. Alguém, simplesmente.

Dói, mas passa.

sábado, 15 de novembro de 2008

O OLHAR DO ESPECTADOR

De sua posição segura no olho do furacão, ela finalmente tem o olhar privilegiado do espectador, e a tudo assiste sem tomar parte ativa. Mantém-se alerta e divertida vendo pegar fogo o circo das relações ditas comunitárias, observando os erros de seus amigos pondo lenha nas fogueiras das vaidades e disputas humanas. E agora, pela primeira vez plateia, e não protagonista, e o melhor: por escolha e mérito próprios.

Vê os erros dos outros, amigos, agora com o distanciamento de uma estranha. Erros óbvios, como quem vê uma casca de banana e pula em cima dela. E se espanta quando cai.

E vê a si mesma, errando e acertando, acertando e errando, porém plena, cônscia de seus atos e dos frutos dos seus atos, com a mente aguda atenta a tudo o que o coração tirano pretende ditar. Pela primeira vez ela tem sobre si o juízo claro desperto, e isso faz toda a diferença sobre seu sofrer outrora habitual, hoje reduzindo a momentos, a que - porra!, ela também tem direito, que merda! As coisas desmudam-se simples ante seus olhos, e desvela-se o último véu de autodesconhecimento.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

COSMOPOLITA

Como ela gostaria de não ser cosmopolita! Como gostaria de não ter que ir atrás de
alarme de carro
licença para uso de espaço
antiácido pra refluxo
refil de maquiagem
vacina pra gata
checkup ginecológico
reclamação da tarifa abusiva do banco
hidratação pro cabelo
insulfilm
segunda via de RG
bainha da jeans nova
optifree pra lente
BO do roubo do celular
esmalte no tom certo do vermelho
renovação do seguro do carro
reserva de hotel pro carnaval
baixar álbum mp3 na net
novo regime infalível
sapateiro pro saltinho do sapato que agarrou no bueiro
encadernação da monografia
cartucho pra impressora
pagamento atrasado do aluguel
msn sempre adiado com a melhor amiga nos EUA
agendamento de limpeza no dentista
pagamento mínimo da fatura do cartão
celular daquele carinha gato
academia de natação com piscina tratada ionicamente
consulta na cartomante
alinhamento e balanceamento
visitar a avó que já é bisa
entrega do trabalho da pós
retrabalho de funcionário
faxina no quarto
desmarcação do psicólogo...

Às vezes, ela gostaria de trocar tudo isso por tardes infindas, bordando na sala de alguma fazenda perdida em algum dos milhares de quilômetros quadrados de Brasil interior...

Ai! Quem dera ter tempo para ter tédio!

Queria ter tempo para pensar quem ela era, o que queria, o que lhe faltava para ser plenamente feliz.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

NA SOLITÁRIA

Vendo um peixe beta sozinho, isolado num desses quadrados de vidro, ela compreendeu a grande verdade da vida: antes só do que sushi.

SEMPRE POR CONCLUIR

Ela tem uma alma feroz. O seu contínuo desafio de se domar é que lhe confere o mínimo de sociabilidade que tem. O estado bruto em que se encontra lhe imprime a sinceridade de alma que ela carrega, tornando-a cortante em sua transparência.

E é esse estado de latência e possibilidades que lhe dá beleza, aquela beleza inerente às coisas sem refinamento, quartzo transparente, ainda que fumê, mas que não foi lapidado. Magnetismo daquilo que é natural, desmedido, destemperado e fora de controle, de magnitude desconhecida, como a tempestade que ela apenas ouve e imagina através da janela fechada.

Sua alma pessoana só sossega com a chuva branca que cai do céu com estrondo, sem relâmpagos ou trovões.

É essa tempestade ao mesmo tempo forte e serena que preenche os espaços da sua alma. É disso que ela é feita: qualquer coisa rústica, tosca e inacabada, com aquela sensação permanente de algo sempre por concluir, frase a completar, lacuna a preencher, pedra a lapidar.

É essa falta de polimento e de suavidade que faz dela o que é: firme e tranquila em meio a seu próprio caos, magnética a ponto de não se poder ignorá-la. Antes isso que ser aquele que passa pela vida sem despertar curiosidade, atração, ira, desejo, fúria, alegria, repulsa.

Antes isso que ser aquele que passa pela vida sem despertar.

Mais completa ela será quanto mais anacrônica for, mais perfeita quanto mais em estado bruto estiver, pois aí será inteira, sem excluir peça alguma do quebra-cabeças dessa alma inquieta que a preenche.

Antes isso que ser aquele que passa.

CAOS

Ficou por longas horas sentada em sua poltrona, olhando o vazio da parede branca à sua frente – ou seria o vazio da sua vida? Quase sem olhar, estendeu a mão para o caderno na cabeceira. Ela era assim mesmo – só criava no caos. A felicidade não lhe produzia nada. Seus temores, suas dores, suas ânsias – só isso a compelia a escrever.

ESTÁ FEITO. ESTÁ BEM FEITO, N'IMPPORTE QUOI

Então, estava feito. Fosse qual fosse o resultado de sua atitude, não havia mais como voltar atrás. A mensagem tinha sido enviada pelo celular, e agora só restava esperar – talvez uma resposta, talvez a dor aguda que (ela sabia) mais cedo ou mais tarde lhe rasgaria o peito, com a certeza dos fatos: ela havia terminado tudo, à distância, sem palavras sonoras, e não haveria um amanhã para os dois.

PARA DEPOIS QUE O TEMPO NOS LIBERTAR A TODOS

A certeza de que havia um mundo além deste lhe dava alento. Fazia-lhe sentir que, algum dia, fora do tempo, poderia olhar de novo nos olhos dele e sorrir, e lhe dizer todas as palavras que agora lhe decompunham no peito, lhe doíam na garganta e lhe transbordavam nos olhos. Poderia lhe agradecer por tudo o que havia aprendido com ele. Poderia dizer o quanto o amaria pra sempre, ainda que outros viessem, pois todo amor, ainda que acabe, é sempre eterno; é eterno o que nos moldou a alma e nos tornou alguém melhor simplesmente por sairmos de nós mesmos.

As lágrimas lhe banhavam o rosto enquanto ela tomava café-com-leite mais rosquinhas de amendoim, e pensava nisto: um dia, fora do espaço e do tempo, lhe diria o quanto ele fora e sempre seria importante; ele sorriria de volta já acima de todas as mágoas mundanas, e nada mais precisaria ser dito.

Respira fundo.

Por enquanto, ela ainda estava presa no tempo...

HOJE

Hoje, ela pode tudo. Hoje é o único dia em que ela pode alguma coisa; então, que seja tudo.

INÍCIOS. MATIZES. ESPECTROS.

Disto ela era feita: de palavras e pausas, de manhãs mornas e madrugadas de julho, de risadas abafadas e lágrimas incontidas.

Escarlate e púrpura.

Ela conduzia sua vida para além do espectro de cores visíveis. Estava disposta a descobrir o que havia abaixo do infravermelho e acima do ultravioleta. E na rodaviva do discodenewton da sua vida, pintava cada momento em matizes fortes, para que não se desgastassem com o passar dos anos, para que não sumissem debaixo de camadas de poeira e demãos de caiação, até que a loucura e a vontade estivessem subjugadas pela velhice, além da possibilidade dos grandes e pequenos feitos.

ESPELHO. LÂMINA

Olhou-se no espelho. Estava de calcinha branca e blusa roxa. Usava a maquiagem básica que punha cotidianamente, que acentuava o fundo das bochechas, os olhos grandes e as sobrancelhas arqueadas. Não era feia, pelo contrário: era bem feita de rosto, com traços sofisticados e bem marcados. Não era um rosto comum, tinha algo de antigo. O corpo, ainda que cheio, era distribuído, curvilíneo. Gostava do que via. Pequenos detalhes a agradavam. As unhas curtas, de um púrpura profundo. A pinta sobre o lábio, à direita. O tom delicadamente pálido da pele, em contraste com o rosa morno das maçãs. Era bonita. Sem dúvida, gostava do que via.

Então, por que se sentia assim infeliz?...